Adoração e o êxodo: compreendendo quem é Deus

Adoração e o êxodo: compreendendo quem é Deus

Uma reflexão sobre O Nome e a essência Divina em Êxodo 3

Na literatura bíblica, os nomes são elementos essenciais para atribuir características aos personagens. O primeiro homem é chamado “Adão”, palavra hebraica usada para designar a raça humana (אדם – “Adam”). Além disso, “adam” deriva de “adamá”, que significa terra (אדמה), demonstrando o elo que existe entre o homem e a terra, já que ele é o guardião e dominador da terra (Gênesis 1:28, 2:15), foi formado através dela e retorna a ela quando morre (Gênesis 3:19). Davi é o “amado” (דוד – David), nome que define perfeitamente aquele que foi uma das figuras mais carismáticas da história de Israel. Sansão (שמשון Shimshon – “ensolarado”) e Dalila (דלילה – “aquela que é fraca” ou “procedente da noite”) têm nomes que são significativos para suas histórias, enfatizando o conflito entre os dois personagens. Alguns nomes demonstram características físicas, como Esaú (עשו – Essav, “peludo”). Outros personagens ganharam até um nome novo, com um significado que representa sua nova condição ou atribuição (אברהם Abraham – Abraão, “pai de muitos”; שרה – Sara, “princesa”). Até a própria palavra hebraica para “nome” deriva de um termo que significa “designar, estabelecer” (שם – shem). Se os nomes são importantes para definir as figuras humanas nas histórias bíblicas, podemos dizer que os nomes e títulos divinos têm uma profundidade especial ao definir os atributos e a essência do próprio Deus.
Deus tem diversos nomes e títulos na bíblia, cada um enfatizando um aspecto diferente do caráter divino. O nome de Deus mais utilizado na bíblia é “Yaweh”, também conhecido como Tetragrama Sagrado – יהוה – pois é formado por quatro letras hebraicas. A versão portuguesa da bíblia utiliza a palavra “Senhor” com a primeira letra em maiúsculo, ou “SENHOR”, com todas as letras maiúsculas toda vez que há “Yaweh” texto hebraico. Este é o nome divino que é utilizado principalmente nas descrições do relacionamento entre Deus e o homem. É o nome mais usado nos Salmos (“O Senhor é o meu pastor”), e nos escritos proféticos (“Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos”), mas não aparece no relato da criação do mundo até Gênesis 2:4, quando se descreve a  criação do homem.
De acordo com alguns estudiosos, Yaweh é a terceira pessoa do singular da forma imperfeita do verbo hebraico “ser, estar, existir”. Yaweh, portanto, poderia ser traduzido como “Aquele que é”, ou “Aquele que existe”. A passagem bíblica que faz referência direta a essa ideia está em Êxodo 3:
(11) Então Moisés disse a Deus: Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel? (12) E disse: Certamente eu serei contigo; e isto te será por sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado este povo do Egito, servireis a Deus neste monte.(13) Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? (14) E disse Deus a Moisés:  EU SOU O QUE SOU (אהיה אשר אהיה). Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. (15) E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR(יהוה) Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração.”
A construção do texto coloca a expressão “Eu Sou” e o nome “Senhor” como equivalentes. A frase “’Eu Sou’ me enviou a vós” é repetida no verso 15, substituindo “Eu Sou” por “O Senhor” (Yaweh), e acrescentando a referência aos patriarcas. “Eu Sou” e “O Senhor” estão em paralelo:
Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. (v. 14)
Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR (Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó) me enviou a vós (v. 15)
A passagem também demonstra o conceito divino de tempo. Moisés pede para Deus um nome que faça sentido para o passado de Israel ao definir Deus como “O Deus de vossos pais” (v. 13 – “quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me disserem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?”). Porém a resposta de Deus esta relacionada com o passado, presente e futuro de Israel. O nome “Eu Sou” (que pode ser traduzido literalmente como “Eu Serei”), junto com o complemento “este é o meu nome eternamente” e “este é o meu memorial de geração em geração” enfatizam a ideia de eternidade atribuída a Deus.
O nome Yaweh é portanto um símbolo da realidade divina. Ele simplesmente “É” – a própria existência é a Sua definição. O Deus bíblico representa a origem de tudo aquilo que existe. João 1:1-3 confirma essa ideia:
(1) No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (2) Ele estava no princípio com Deus. (3) Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
O prólogo Joanino começa com a expressão “No princípio” e também faz menção a criação do mundo, o que leva a concluir que esses primeiros versos contém uma citação direta a Gênesis 1 (“No princípio criou Deus os céus e a terra”). O que chama a atenção é a expressão “verbo”, do grego λογος (logos), que significa literalmente “palavra”. É através dessa “palavra” que Deus cria o mundo (“todas as coisas foram feitas por ele” – v. 3), e ela também é de certa forma uma definição do conceito de Deus (“e o verbo era Deus” – v.2).
A palavra através da qual Deus cria o mundo, segundo o relato de Gênesis, é o verbo “ser, estar, existir” (יהי אור – “Haja Luz”). Esse é mesmo verbo que aparece na expressão “Eu Sou o que Sou” (אהיה אשר אהיה). É a mesma expressão da qual deriva o nome divino “Yaweh” (יהוה). Deus é a origem de tudo o que existe, e sem ele “nada do que foi feito se fez”. Deus não apenas diz “Haja” luz. Deus é “Haja” luz. A existência de tudo o que pode ser admirado, tocado, sentido, ouvido está na essência Divina. Se o universo existe, é porque Deus existe. Ele é a força criativa que gera todas as coisas. Ele É o que É.

Rolnei Bueno Tavares
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